Não é nada fácil reconstruir a vida quando a gente se muda

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Quando você vai morar em outro lugar, por mais perto que seja da sua cidade natal, algumas coisas acabam pesando mais que as malas que você leva. O deslocamento causa estranheza. Além do fato de ir sozinho, encarar pela primeira vez a tarefa de cuidar inteiramente de você mesmo, você se depara com o desafio de reconstruir a vida – ou construir uma fase nova, o que é mais apropriado. Digo isso porque senti na pele a brutal diferença entre Rio e São Paulo nos meus primeiros meses de Terra da Garoa.

Você acaba percebendo como é complicado construir novos laços num lugar novo, quando todos os seus laços afetivos estão há alguns muitos quilômetros de distância de você. Você quer ir ao cinema numa quarta-feira à noite e não sabe exatamente quem chamar. Você não quer chamar a pessoa que divide o apartamento com você, a menos que ela seja sua amiga de longa data. Você não quer chamar um rolo ou caso qualquer, porque não quer fazer dessa saída um encontro. Você queria mesmo é que um dos seus melhores amigos estivesse lá pra isso.

Quando a gente se depara com circunstâncias do cotidiano que eram normais no lugar onde nós construímos a nossa vida, percebemos quão difícil é construir novos laços. Eles não se constroem na noite pro dia, você não vai pensar em cinema ou num passeio no parque com alguém em mente, como era antes. Não. Vai demorar um bocado até você conhecer melhor as pessoas e ter aquele grupinho dos jogos de tabuleiro em casa. Até ter alguém certeiro pros programas de quarta à noite. Até saber exatamente pra quem ligar num domingo de tarde pra falar da vida.

A impressão que tenho é que mudanças de cidade fazem com que seus amigos e colegas “razoáveis” sumam da sua vida. Gente que você esbarrava ocasionalmente, trocava uma ou duas palavras, ia pra balada junto. Esses laços fracos não sobrevivem à distância. Já os seus melhores amigos se tornam portos seguros muito mais necessários do que eram antes. Sem eles você não suportaria os momentos de solidão no lugar novo. Enquanto isso, na sua nova vida, você tenta conhecer pessoas e desenvolver algo que vá além das turminhas de balada, da galera da internet, do pessoal que você encontra sempre num barzinho do seu bairro. E parece que quanto mais velho a gente fica, mais difícil é de criar esses laços únicos que promovem experiências profundas de amizade.

A sorte é que a crise solitária que abate todo mundo que se muda acaba passando aos poucos. Pode ser que nunca suma e que você se sinta preso ao seu local natal, fazendo incessantes viagens de final de semana e feriados, sem deixar que a ficha caia e a vida te mostre onde é seu lugar agora. Pode ser que você nunca desgarre da ponte aérea e acabe dificultando ainda mais a criação de novas raízes na cidade nova e, por consequência, acabe criando mais barreiras para novos vínculos. Mas uma hora você acaba percebendo que existem mais pessoas no mesmo barco que você. Aqui em São Paulo, por exemplo, tem muita gente que trocou um lugar amado pela cidade cinza e que adoraria pegar um cinema, tomar um café, conversar sobre amenidades até que os papos evoluam e o relacionamento também. Gente que está no mesmo barco que você e que eu. O importante é que a gente não desista de derrubar essa apatia que nos prende ao passado deixado no aeroporto. No fim das contas, a gente vai aprender que existe espaço pra todo mundo: os antigos e importantes amigos e nossos novos portos seguros, que podem não parecer uma boa ideia de início, que podem não parecer construções imponentes de um píer, mas que só precisam de um pouco de base pra fazer parte dos pilares da sua nova vida.

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Daniel Bovolento

Publicitário carioca que reside em São Paulo. Meio bossa nova e rock n'roll. Editor e consultor para projetos de conteúdo, além de jornalista de comportamento e um monte de outras coisas. Gosta de viver novas experiências como se fossem únicas, ainda mais se estiver bem vestido pra isso.

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Vou mudar para Edimburgo daqui a um ano e morrendo de medo já do que fazer quando a solidão bater.

Vou mudar para Edimburgo daqui a um ano e já estou morrendo de medo do que vou fazer nesses momentos em que a solidão bater.

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