O dia em que eu comprei uma calça legging

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Não tem nem um ano desde que fiz alguns tweets falando sobre um guri que estava usando legging na academia. No meu julgamento cotidiano, uma calça legging não era legal por uma série de questões normativas – que não estavam muito bem claras diante dos meus olhos.

De 2015 para 2016, percebi o aumento de uso de calças leggings por homens em ambientes de academia e atividades físicas. Muitos amigos começaram a usar não só para malhar, mas também para compor looks cotidianos, para ficar em casa, para fazer faxina e até pra ir pra balada. E junto com essa contextualização da legging, foi crescendo uma vontadezinha de testar uma na academia.

Usei a da minha mãe no carnaval de 2016 para ir a um bloco e me surpreendi: aquilo era realmente confortavelmente. Não apertava, dava movimento e ainda por cima comprimia meu corpo num formato mais acertado. E fiquei com aquilo na cabeça: preciso comprar uma legging.

Eis que o primeiro desafio foi lançado: achar uma calça legging. Procurando pela internet, encontrei as variações entre legging masculina e legging feminina, coisa que não fazia muito sentido na minha cabeça. Afinal de contas, não se tratava só de uma calça preta mais justa? Fui a algumas lojas e dei de cara com preços bem discrepantes. A Track & Field me ofereceu uma legging por R$ 198, muito fora do valor que eu pretendia comprar. Então lembrei de um amigo que comprou uma na Hering. Perguntei pra vendedora se ela tinha alguma, e ela automaticamente se virou para minha amiga para perguntar o tamanho. Eu disse que era pra mim. Ela fez uma pequena pausa de espanto, foi procurar e não tinha meu tamanho. Mas o preço já estava mais em conta (R$ 59,00).

Fomos para a Forever 21. Entre camisetas e calças da seção masculina, dou de cara com uma banca cheia de calças legging de cores diferentes: branca, cinza, preta, rosa chiclete. Vi o preço (R$ 24,90) e peguei uma preta simples. Tinha nada demais, era realmente uma legging preta – que vestiu super bem. E eu ainda não tinha entendido o porquê daquilo estar na seção feminina, o porquê da estranheza da vendedora da Hering, o porquê de terem olhado estranho quando pedi meu tamanho.

Alguns dias depois, comecei a entender. Fui com a legging para a academia – e um novo capítulo na minha vida se abriu. Vocês não têm ideia de como esse negócio é confortável e te permite correr, pedalar, fazer exercícios de perna e todo o resto sem incomodar. Parece que você está pelado – e isso faz toda a diferença. Por outro lado, fui encarado na rua, na academia e provavelmente algum ser humano fez o mesmo que eu fiz há um ano com o rapaz de legging que vi, dando risinhos enquanto eu malhava.

O lance todo disso levantou algumas questões. Primeiro, a padronização idiota de roupas em seções masculinas e femininas, quando essa ideia da construção do masculino e feminino é produto de uma cultura que tenta impor padrões de gênero. Uma calça preta dessas chamar a atenção de vendedores, pessoas na rua e pessoas na academia só mostra como a gente ainda coloca a nossa expressão pessoal – e a moda, consequentemente – em caixinhas do senso comum. E acho ótimo que exista um movimento em torno da quebra disso na sociedade. Em segundo lugar, aprendi que você não precisa gastar milhares para ter conforto – e que conforto importa e muito no dia a dia. Tanto é que pouco me importei com os olhares atraídos nas outras vezes em que usei a minha nova legging de estimação. E digo mais: a gente não deveria se importar. Enquanto a maioria das pessoas tá lá dando risinhos com roupas escandalosamente desconfortáveis, nós estamos aproveitando a liberdade de usar o que a gente quiser usar no dia a dia.

(Foto do post: reprodução internet)

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Daniel Bovolento

Publicitário carioca que reside em São Paulo. Meio bossa nova e rock n'roll. Editor e consultor para projetos de conteúdo, além de jornalista de comportamento e um monte de outras coisas. Gosta de viver novas experiências como se fossem únicas, ainda mais se estiver bem vestido pra isso.

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