Saia de casa: não deixe seu home office engolir você

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Há alguns meses tive uma mudança completa de estilo de vida quando decidi me dedicar aos meus livros e aos projetos de internet. Pedi demissão, fiz as contas, decidi que minha casa seria meu novo escritório e lá fui eu em busca de um sonho – com muito trabalho envolvido.

Não sou disciplinado e tenho o foco de uma criança de três anos que se distrai por coisa pouca. Mas achei que transformar meu hobby em trabalho e fazer com que ele fosse necessário para a minha sobrevivência fosse mudar isso. Ledo engano. Em bons quatro meses de home office, entre uma viagem e outra, percebi que trabalhar de casa não é algo que qualquer pessoa pode fazer. Não só pelo fato da disciplina e do foco, mas transformar seu lar em trabalho pode ser a melhor e a pior coisa que você terá feito em muito tempo.

Dentro do seu quarto, tudo se transforma em trabalho e todo o trabalho se transforma em distração. É confortável deitar na cama e digitar, mas te deixa mole. É estressante acordar e dar de cara com sua estação de trabalho bem de frente pra cama. São dois mundos que acabam entrando em conflito, sem contar com o maior dos meus problemas: trabalhar em casa o tempo todo assassina a sua criatividade.

Você acorda, toma banho, toma café e senta pra trabalhar sem hora pra terminar. Não sai de casa, talvez nem saia do quarto, tudo seu é feito ali. Você não troca mais ideias com outras pessoas com a mesma frequência, não vê mais gente se movimentando no transporte público, não marca mais happy hours não programados depois do expediente. Você perde um pouco da experiência humana, criativa e inovadora quando se tranca no seu casulo.

Todo mundo precisa entrar em contato com o mundo para criar, mesmo que o seu trabalho seja criar códigos, planilhas ou coisas consideradas “menos criativas” (não são, sabemos que todo trabalho demanda criatividade). Você precisa assistir a uma peça de teatro e ver lançamentos no cinema, não só de filmes no computador vive o homem. Você precisa encontrar alguém, ver gente andando num café, andar no parque, fazer compras no mercado, esbarrar nas pessoas, ver a vida acontecendo. Você precisa de movimento, caso contrário, seu home office vai transformar sua vida criativa num cativeiro paradão.

Então, se eu pudesse te dar um único conselho, este seria: saia de casa. Vá trabalhar numa biblioteca, na casa do seu sócio ou do seu melhor amigo, numa livraria do shopping, em qualquer outro lugar. Tire o pijama, arrume-se para sair de casa, gaste dinheiro comprando alguns almoços, cafés e chás. Ande um pouco, leia mais fora de casa, consuma cultura, encontre gente. Assista ao mundo se movimentando, não fique parado. Seja um nômade criativo, no sentido mais amplo do termo. Não estacione. Caso contrário, sua casa engolirá você, seu trabalho transformará sua cama numa mesa dura e nem um pouco confortável e você, meu caro leitor, se sentirá entediado, petrificado, mais do mesmo, como se a liberdade que o permitiu trabalhar de qualquer lugar do mundo não servisse pra nada.

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Daniel Bovolento

Publicitário carioca que reside em São Paulo. Meio bossa nova e rock n'roll. Editor e consultor para projetos de conteúdo, além de jornalista de comportamento e um monte de outras coisas. Gosta de viver novas experiências como se fossem únicas, ainda mais se estiver bem vestido pra isso.

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